E a menina fez uma expressão de finalmente. Apertou algumas mãos, deu alguns sorrisos, disse algumas palavras e saiu.
Estava uma chuva horrível. Mas qualquer lugar era melhor do que aquele, pelo menos pra ela. E saber que estaria em casa em alguns minutos era ainda mais gratificante. Antes que corresse até o outro lado da rua sentiu que estava toda molhada. Maldito tênis branco. Estava mais difícil correr agora, com aquele peso das roupas molhadas. Continuou.
Parou apoiando as mãos no joelho; sua respiração pesada, buscando fôlego. Depois de virar a esquina precisaria correr uma curta distancia e estaria em casa. Assim que deu os primeiros passos voltando a corrida ela se sentiu zonza, sua visão estava escurecendo.
E ela caiu. Apagou.
O som da chuva soava pior em sua cabeça do que ela jamais poderia lembrar. E a chuva caindo no seu corpo, e o chão debaixo dela era estranho. Porque quanto tempo eu fiquei aqui? Se sentou no chão, olhando para os lados; estava tudo escuro. Tentou abrir os olhos, mas continuou a mesma coisa e ela percebeu que eles já estavam abertos, apenas não havia nada para de ver. Eu morri? É isso? Assim?
E mesmo isso sendo aquilo que ela desejava desesperadamente a muito tempo, ela abraçou os joelhos e chorou, chorou alto, sem se importar de fazer barulho. As luzes piscaram e ela pode ver tudo novamente. Estava no mesmo lugar que havia caído. Podia escutar a tv da vizinha (mesmo no meio da chuva) que sempre estava alta demais por ela ser meio surda. E as luzes dos postes estavam ali, iluminando sua cena ridícula.
Se eu morri o inferno é mesmo um inferno, nada pior do que continuar do mesmo jeito quando tudo deveria só acabar.
Os pensamentos sarcásticos e brincadeiras que se tornaram normais nas ultimas semanas estavam em sua mente, mas junto dele havia um horrível desespero. E um medo maior ainda. Coisas que ela não entendia, não sabia porque disso acontecer. Mas lá estava seu coração batendo freneticamente, fazendo seu peito doer como nunca. Como se fossem tambores sendo tocados, mais fortes que os trovoes. Lá estava aquela dor provando que alguma coisa devia estar errada.
Ela se levantou rapidamente, se apoiando no muro da casa ao lado; esperando pra ter certeza que não iria passar mal de novo. Contou alguns segundos e voltou a correr. Não porque queria sair da chuva. Já estava molhada por toda a geração. Apenas porque precisava correr, precisava fugir.
Entrou em casa sem se preocupar em estar molhando tudo. Foi direto para o quarto onde se deitou encolhida na cama, com o travesseiro no rosto, abafando o choro. Segurava o travesseiro o mais forte que podia. Seus dedos foram se afrouxando, o choro cessou, e sua respiração voltou ao normal.
Acordou um tempo depois, com uma aflição e um medo mais terrível. Pegou o celular que havia deixado em casa antes de sair e foi para o banheiro tentar se livrar daquilo. Colocou uma das musicas que a deixava alegre e entrou debaixo da água quente. Quando percebeu estava sentada no chão, as lagrimas se misturando com a água quente. O som do seu desespero se perdendo em meio a melodias animadas e palavras, e o som do chuveiro.
E antes que pudesse se controlar e ter consciencia do que estava fazendo ela se levantou pegando a gilete e passando pelo braço. E assim que a dor a atingiu e seu rosto foi tomado pela expressão de choque e ela parou. Voltando ao chão, chorando e se culpando ainda mais. Você prometou, você prometeu, você prometeu pra eles.
Se secou rapidamente e limpou o braço. Voltou ao quarto onde se jogou na cama, mesmo estando molhada. Alguns minutos ali olhando para o teto e começou a ficar calma novamente. Se arrependendo de todas as lagrimas, e da dor que causara a si mesma. Colocando a cabeça no lugar e arrumando as coisas ao redor, fingindo que nada tinha acontecido. Guardou o seu caos sem sentido em algum canto de si.
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