Lá estava a menina sentada admirando a imensidão do mar. Algumas gotas salgadas a alcançavam quando a aguá batia contra a rocha. Ela não se importava. Olhava o céu azul e sorria, mas logo voltava a atenção para a aguá.
Ah, o céu... Olhar o céu a fazia querer voar, era outro patamar da vida, imaginava que as nuvens eram os seus sonhos. As nuvens não ficam paradas ali sempre, o vento sopra e as leva pra outro lugar. Ou chove. E tudo desmorona. Tem também as neblinas, você pode as tocar mas não dá a sensação de ser real, e elas se vão logo.
Tudo se foi logo, pensava a menina.
Ela deitou sobre a rocha e fechou os olhos.
Seria simples ter pego uma arma, pular de algum lugar alto, tomar muitos remédios, ou alguma outra coisa. Simples, mas talvez não funcionasse, e ela precisava que desse certo. Ninguém poderia saber que aquilo foi de proposito, não poderia machucar alguém daquele jeito. Não podia correr o risco de algo dar errado e ter de ver todos tentando ajudar, todas as lagrimas, todo o sofrimento. O dela já bastava. Já estava cansada, já havia desistido. Era simples entrar naquele azul e esperar a vida se esvair. Não seria rápido, não seria uma espera boa. Mas tudo acabaria ali, não haveria nada mais. Nada.
Seria um acidente. Apenas mais uma pessoa que se perdeu no azul. Não havia sido diferente nos últimos dias, não deu nenhum adeus, não se comportou de forma diferente. Sempre as mesmas palavras, os mesmo passos. Não havia nada nas entrelinhas.
A menina abriu os olhos, se levantou. Em alguns segundos não se via mais uma menina ali; o azul a engoliu.