Fui acendendo as luzes da casa. Coçava os olhos e apertava o interruptor. Cada vez que uma lâmpada acendia meus olhos ofuscavam, me dando alguns segundos de cegueira depois de lamentar nossa briga. De luz em luz eu cheguei na cozinha e logo abri a geladeira. Procurei, procurei, mas a nossa última briga acabou com as minhas garrafas de cerveja. Então resolvi abrir uma garrafa de whiskey, daqueles vagabundos, mas isso nem sequer passou pela minha cabeça. Enchi o primeiro copo e acendi o primeiro cigarro. Deus, como a minha mão tremia. Aquele líquido alaranjado balançava de um lado para o outro do copo enquanto eu só observava aquele movimento, sentindo o cheiro da fumaça do cigarro que queimava entre os meus dedos.
Passei algumas horas ali, bebendo aquele whiskey vagabundo e fumando alguns cigarros baratos, até que o meu celular começou a vibrar sobre a mesa. Bati a mão pra pegar mas minha lucidez há tempos já havia deixado o meu corpo. Tentava adivinhar qual dos três celulares que eu enxergava era o real, e após algumas tentativas eu consegui. "Receber chamada." Foi um momento estranho, de expectativa a um silêncio mórbido. "Você tá aí?" Não conseguia te responder. Minha voz já estava rouca de tanta bebida e meus únicos movimentos eram suspirar coçando os olhos cada vez mais inchados. "Olha, tá na hora de conversar, você sabe. Se quiser continuar me chamando de namorada, vem pra cá. Tchau." Eu juro que esperava um "como você tá?" ou um simples "tudo bem?", mas eu te conhecia e aquela não era uma atitude que viria do seu peito orgulhoso. Levantei.
Levantei mas quase caí logo de primeira. Minhas pernas bambeavam como em um surto anêmico e meus olhos estavam parcialmente cegos. Tudo balançava, girava, distorcia, mas mesmo assim peguei as chaves. Não era uma boa ideia dirigir, mas sei que você é do tipo apressada (menos quando se arruma, mas isso não é algo que eu deveria reclamar porque você arrumada era duas vezes mais linda do que era normalmente, sendo que seu normal já era o mais lindo que eu já tinha visto), então resolvi correr. Os pneus cantavam em cada curva, mas aquilo era necessário. Tudo era pra te ver mais uma vez e assim poder te ver muitas outras mais.
Nunca tinha reparado, mas como você mora longe, meu Deus. Continuava acelerando, mas meus pés não tinham força suficiente. Minhas pernas ainda tremiam tomadas pela embriaguez. Pela estrada o trânsito estava tranquilo, só eu e toda aquela imensidão de asfalto. Mas de repente um carro veio na direção contrária e a luz do seu farol veio em direção ao meu rosto. No mesmo instante minha visão esbranqueceu e eu não tinha mais controle do veículo, era como se o meu corpo não respondesse aos meus comandos. Ouvi apenas uma longa derrapada e o barulho de lata batendo, amassando, retorcendo. Apaguei.
Minutos depois acordei com telefone tocando, mergulhado em um líquido vermelho que infelizmente não vinha do veículo. Fiz um pouco de força e atendi o telefone. "Vem cá, você não me ama? Você não quer mais ficar comigo? Já cansei de ouvir as suas desculpinhas, você tem que crescer, virar um homem que parece que você nunca vai ser, e..." sua fala irritada foi interrompida por um distante barulho de sirene. Surgiu um silêncio mórbido, pior do que o da nossa última conversa. Quando aquele som se aproximou e parou por perto de onde eu estava você voltou a falar. "Você tá bem? O que tá acontecendo? Ei, responde." Sua voz estremeceu. Era estranho como seu orgulho tinha sido jogado de lado agora, mas pra mim estava tudo bem. Aquela sua voz doce era a única coisa que eu queria ouvir. Sentindo o sangue na minha garganta eu apenas juntei meu último suspiro e te pedi mais uma vez, "Desculpa!"
Você que sempre reclamava por eu me desculpar demais, por lamentar mais do que devia, agora fica com um pedido desses como adeus, e dessa vez, é pra sempre. Desculpa.
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